Em um ano, 1,2 milhão de trabalhadores geram renda em casa

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Atualizado: outubro 21, 2019

Crise e tecnologia explicam crescimento. Segundo consultoria IDados, já são 4,5 milhões de brasileiros nessa situação

Desde o primeiro trimestre de 2018, mais 1,2 milhão de pessoas passaram a usar a própria casa como local de trabalho. Já são 4,5 milhões de brasileiros nessa situação, de acordo com estudo da consultoria IDados a partir de estatísticas do IBGE. O crescimento é explicado principalmente pela crise prolongada do mercado de trabalho, que ainda gera poucos empregos formais, mas também reflete as facilidades trazidas pela tecnologia para eliminar o tempo e o dinheiro gasto com transporte e alimentação fora de casa.

O teletrabalho ajudou a técnica em administração Karen Luz, de 24 anos, a aumentar a poupança da família para a casa própria. Com carteira assinada, trabalha remotamente para uma empresa de telecomunicações enquanto toca sua própria marca de doces artesanais. Ao passar a trabalhar em casa, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, deixou para trás a rotina diária de três horas no trem e no metrô para ir à empresa, no Centro.

“O que ganho com os doces ainda não dá para os gastos. O mercado é bem oscilante, e preciso de estabilidade. Tenho meu filho que precisa de mim”, diz Karen, que ainda cursa faculdade de Administração.

Maioria por conta própria 

Ter um trabalho remoto com carteira assinada, como o de Karen, ainda é para uma minoria, apenas 1,1% do total de pessoas que hoje geram renda sem sair de casa. A maior parte dos que estão nessa situação é de trabalhadores por conta própria: cerca de 3,9 milhões.

“O crescimento da informalidade explica boa parte do aumento do trabalho em casa. É um fator que pesa bastante”, afirma Tiago Barreira, pesquisador do IDados, responsável pelo estudo.

A maior parte dos que trabalham em casa ganha pouco (metade ganha menos de um salário mínimo) e não tem instrução (27,1%), mas a parcela de trabalhadores domiciliares com ensino superior está aumentando: subiu de 16,3% no início de 2018 para 19,3% no segundo trimestre deste ano. Também aumentou, de 4,8% para 6,1%, a participação dos que ganham mais de cinco salários mínimos com atividades realizadas em casa.

O psicólogo João do Nascimento, de 24 anos, atendia em uma sala sublocada no Centro de Niterói, mas decidiu receber pacientes em casa para cortar o gasto com o aluguel. Também faz consultas por meio do computador:

“Se continuasse a atender na sala, estaria hoje pagando para trabalhar. Depois comecei a atender via skype. Muitos pacientes até preferem on-line. Pretendo aumentar meus atendimentos virtuais, mas sem excluir o presencial”.

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social, o avanço tecnológico facilitou o trabalho em casa, e o trânsito caótico das grandes cidades combinado ao alto custo do transporte também estimula essa opção. Ele cita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada na semana passada pelo IBGE, que mostrou que o transporte passou a ser a maior despesa das famílias, superando alimentação.

“E o computador com internet ainda está crescendo nas famílias”, observa Neri.

Dois terços são mulheres 

A presença feminina entre os que trabalham em casa é maior: elas são 68,8%. Apesar de vantagens como a carga horária flexível, o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli observa que há perdas na comparação com o emprego tradicional. Segundo ele, quem trabalha em casa tem menos proteção. Não há controle de jornada e o trabalhador ainda fica com o ônus de manutenção dos equipamentos que usa desde a reforma trabalhista:

“O trabalho em casa é mais precário. Ainda há uma questão de gênero. Geralmente, são mulheres que fazem teletrabalho. Acumulam cuidados de filhos e idosos, da casa, cumprindo tarefas que a sociedade impõe. Assim, perpetuamos a sobrecarga delas”.

Flávia Rissino já trabalhava remotamente como atendente de telemarketing em sua casa, em Itaboraí, na região metropolitana, mas acabou perdendo o emprego formal em 2016. Ela foi obrigada a mudar de atividade, mas manteve o local de trabalho. Ela já fazia doces para vender desde 2014, e essa passou a ser sua principal fonte de renda.

“Fui demitida porque a empresa acabou com trabalho remoto, e eu não queria me deslocar todo dia. Como já fazia doces, resolvi continuar a trabalhar em casa”.

Mas a crise também atingiu seu negócio. Após sentir uma queda de 40% nas encomendas, Flávia teve que procurar outra renda. Para manter as contas em dia e pagar a faculdade de Pedagogia, começou trabalhar como inspetora em uma creche. Ganhando um salário mínimo, ela percebeu outra oportunidade: usar o carro a caminho do trabalho para fazer transporte escolar.

“As encomendas são muito instáveis, e a faculdade vence todo mês. Comecei a rota para pagar a faculdade. Hoje, o transporte e os doces são metade da minha renda”, conta.

O fim do home office na empresa de Flávia vai na contramão do que vêm experimentando grandes companhias. Segundo pesquisa da consultoria Mercer com 680 companhias no país, 35% já têm a opção de trabalho em casa em alguns dias da semana e 62% adotaram horários flexíveis. Segundo Nelson Bravo, consultor da Mercer, esse é um benefício que agrada os profissionais e ajuda a cortar custos. Os escritórios podem ter menos estações, já que empregados não vão todos os dias.

“A procura por consultoria vem crescendo, desde 2017, com a reforma trabalhista, que regulou a situação. A oferta de teletrabalho atrai e retém funcionários, que não precisam gastar tempo no trânsito e têm mais flexibilidade na rotina”, diz Nelson Bravo, consultor da Mercer.

FONTE: O GLOBO

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